quarta-feira, 7 de agosto de 2024

O Cântico dos Tempos - Sermão da Montanha - PWRF

A multidão do povo se encontrava
Em estado de ternura e poesia
A cada frase que Ele proferia
A todos corações iluminava

Ele era um vulto lindo que surgia
Cheio de fé, amor e confiança
Sua bondade eterna era a esperança
Que a morte d’alma transformava em dia...

Quantas verdades belas ensinava
Quanta beleza a fé quando irradia
Uma profundidade que existia
Nascia dentro Dele, que falava...

Estava pois a multidão contrita
Ouvindo o Nazareno, que cantava,
A cada fala que pronunciava
Iluminava-se uma alma aflita

E daquela colina verdejante
Onde sopravam brisas vespertinas
Ouviram-se verdades cristalinas
Que se impuseram séculos adiante:

“Bem aventuradas sejam as criaturas
Cuja pobreza lhes veste o coração
Pois, em verdade, vos digo, de antemão,
Que o Céu lhes pagará as desventuras"

Benditos sejam os donos da humildade
Que passam a vida em sofrimento
A vida inteira é apenas um momento
Que resplandecerá na eternidade.

”Quanto conforto, havia tanta gente
Que era humilde e pobre aquele dia
Fora uma tarde plena de alegria
De esperança, fé, tão docemente"

E o Nazareno, olhando para o povo
Continuou falando com emoção
Tudo nascia de seu coração
E Ele murmurou, doce, de novo:

“Benditos sejam aqueles que são brandos
Em cujas almas mansidão se encerra
Afáveis e avessos aos desmandos
Esses irmãos possuirão a Terra"

Brandura e paciência são virtudes
De afabilidade encantadora
A qualidade eterna e duradoura
Nasce do Amor e da mansuetude

Benditos sejam aqueles que a tristeza
Magoa-lhes a funda solidão
Que saibam entrever toda a beleza
Do Deus interno do seu coração

Bendito seja aquele que perdoa
E que releva as faltas cometidas
A cicatriz que temos das feridas
São perdão de Deus que abençoa

Bem aventurado o misericordioso
Porque obterá a misericórdia
Não há coisa mais bonita do que a concórdia
Entre um espírito puro e dadivoso

Benditos os que são injustiçados
Não lhes valendo aqui os defensores
Deus não lhes dá, as vezes, protetores
Porque no Céu são galardoados

Benditos são os sedentos de justiça
Que buscam o direito por direito
Por Deus e pelos teus terão no pleito
O prêmio que se alcança em brava liça

Bem aventurados aqueles que suplicam
Pela justiça na Terra que é de Deus
Em nome d'Ele lutam pelos seus
Princípios que a si também aplicam

Benditos sejam aqueles perseguidos
E que padecem por amor ao Pai
Às vezes, neste mundo, um corpo cai
Mas quem o derrubou será vencido.

”Uma serena brisa perpassava
Com o aroma das flores da colina
E a voz do Nazareno cristalina
Numa cadência doce murmurava:"

“Vós sois a luz do mundo” - Ele dizia,
-“A própria força eterna, a criação"
Não desejeis achar que um lampião
Espalhe a luz no canto que alumia

O facho de um coração contido
Por mais intenso que seja em vibração
Jamais será visível, conhecido
De Deus jamais será a expressão

A vossa luz interna é tão divina
Nos olhos, pela voz e pelos atos
Deve expressar no mundo os tons exatos
Da luz do Pai afável e cristalina

O anonimato as vezes é prudente
É sábio quando existe com razão
Contudo vossa luz é permanente
E dessa luz emana força, a ação.

”O Nazareno prosseguia atento
Olhares demonstravam as emoções
A multidão era contentamento
Alegres pareciam os corações"

Contudo o Mestre olhava e pressentia
Que muitos deles ainda que contritos
Mostravam-se inseguros e aflitos
Alguma falta a vida lhes fazia

Voltando-se sereno àqueles filhos
Numa mensagem de sábio conteúdo
Em fala simples, ele disse tudo
Com límpido e bucólico estribilho:

“Contemplai os pássaros brejeiros
Que voam por um céu de mil matizes
Notai como são belos e felizes
Não ceifam nem recolhem aos celeiros."

Não lhes preocupam o dia após dia
Apenas a alegria de viver
O pássaro é de Deus, n'Ele confia
E é Ele quem lhe dá o que comer

Olhai também os lírios do campesinos
Como crescem sozinhos em beleza
Não trabalham, nem fiam na certeza
Que são as obras de Deus, os seus destinos

Não há coisa mais linda do que eles
A natureza divina é perfeição
Nem mesmo em, sua Glória, Salomão
Jamais pode vestir-se como um deles...

A vossa pouca fé, o vosso afã
É tola, filhos meus, vede exemplo:
A natureza do o pai é o próprio templo
Deixai a ele o dia de amanhã

Assim buscando o Pai, a singeleza
Sem a materialidade e a cobiça
As coisas dessa Terra, com justiça,
A vós acrescerão, tende certeza.

”De novo o Mestre, doce e convincente,
Levava aos corações um novo alento
E a alma do povo viu, por um momento
Que as novas luzes vinham àquela gente"

Vós sois o sal da terra, o sal do mundo
Se não usardes bem, com sensatez
A qualidade dele perde a vez
Será sal pobre ao chão, pisado, imundo

Vois sois o sal da terra, na verdade,
Mas não desvirtueis o seu sentido
Pois se o fizerdes estarás perdido
Todo o sabor e a perenidade

O sal da terra em vós representado
É o sal da vida, é algo espiritual
Não pode ter sabor material
É algo que se tem para ser dado

De que valem os excessos, fanatismos
Prestigio, erudição e ostentações
O que vos vale é o sal dos corações
Que ama o próximo e vive sem egoísmos.

”Em outra pausa, olhando para o povo
De forma amável e plena de harmonia
O Nazareno terno prosseguia
E a sua voz ouvia-se de novo:"

Mentir tornou-se algo corriqueiro
E a palavra do homem perdeu fé
O juramento, em suma, as vezes é
Tentar tornar o falso verdadeiro

Se houvesse só verdade no falar;
Pois se mentir é ato desprezível,
Que avilta aquele que assim praticar,
Como seria o mundo convivível

Por isso não jureis, isto vos digo
E muito menos em nome do Pai
O juramento é um método antigo
Para encobrir-se algo que se trai

Deveis saber que o Bem em vós é tudo
E que com ele vive o coração
Tratai de cultivar a mansidão
E nas horas difíceis, sobretudo.

Se a vossa face esquerda é atingida
Por uma injusta e insólita agressão
Deveis, num gesto de sublimação,
Dar a direita, humilde e consentida

Amai a vossos irmãos intensamente
Pois é o amor que traz a felicidade
Até aos inimigos, na verdade
Deveis dar o perdão, ser indulgente

Amar a quem vos ama é também,
O impulso natural do coração
O que é virtude real - é afeição
Pra quem nos traz o mal, e não o bem.

”Um hausto de ventura e de harmonia
Passava sobre aquela multidão
O Mestre com ternura e devoção
Em sua fala calma prosseguia:"

A boa obra não precisa alarde
Se é feita pura e com devoção
Não façais vós o bem, para mais tarde,
Colher aplausos e admiração

“Quem tem riqueza interior conhece
O mérito das obras que pratica
Pobre daquele que reivindica
O seu trabalho feito com interesse"

Quando em Deus estiverdes jejuando
Lavai o rosto, cingi vossa cabeça
Que a prática cristã só aconteça
Com a humanidade se rejubilando

Amigo ao servir, sem servilismo
Viver alegre, mas com compostura
Adorar a Deus, sem fanatismo
Sofrer na vida, mas sem amargura.

”O Nazareno afável prosseguia
Com suas frases cheias de calor
E numa atmosfera de amor
O povo enternecido o assistia"

Quem não renunciar aos bens terrenos
E da cobiça não ficar liberto
Não será meu discípulo, por certo,
É um ‘mais’ que, no futuro, será ‘menos’

“Em nada ganhareis digo-vos, pois
Se não abdicardes das riquezas
Eu não vos julgarei, tende certeza,
Pelo que tendes, mas pelo que sois"

“Não julgareis, achando-vos tão certo
E que o vosso veredicto é o verdadeiro
‘Alguém’ em seu momento derradeiro
Até o próprio algoz deixou liberto"

“Não queirais ver argueiro em olho alheio
Nem corrigir a falta em vosso irmão
Consultai antes vosso coração
De traves vosso olhar pode estar cheio".

”O doce Mestre olhando para o povo
Fez uma breve pausa em seu falar
A brisa fresca perpassou de novo,
Com um aroma de flores pelo ar"

Pois eis que, na verdade, aqui vos digo
Aquele que pedir, receberá
Quem procurar há - de encontrar abrigo
E para quem bater, abrir-se-á

“Quem, dentre vós, ousar tornar-se grande
Que se liberte, antes dos engodos
Não queira dominar, nem se desmande
Seja, na Terra, o servidor de todos"

Não penseis vós que aqui eu tenho vindo
Para abolir a lei e seus profetas
Mas para torná-las mais completas
Acrescentando ou mesmo corrigindo

“É certo que foi dito aos antigos
Mas toda a imperfeição da mente humana
Algumas leis cumpriu de forma insana,
Por isso urge mudá-las, eu vos digo"

Toda a medida que vós aplicardes
A vós será aplicada em igualdade
A regra de proporcionalidade
Virá aos homens, certa e sem alarde

O mal que se fizer com consciência
Pela vontade do Pai será punido
Mas a misericórdia ao arrependido
Também estará presente na clemência

Aquele que o bem houver plantado
Há de regozijar-se na colheita
Mas haverá da forma, a mais perfeita
Os frutos pelos grãos bem semeados.

A multidão contrita o assistia
Com o olhar a brilhar de comoção
Um cálido conforto ao coração
Chegava-lhes ao peito e Ele dizia:

Estreita é a porta na verdade,
E apertada a estrada a percorrer
Para os que pretenderem merecer
A condução feliz à eternidade

Nada de bom conseguireis na vida
Sem o esforço sadio da labuta
O preço da vitória é sempre a luta
E o sacrifício à causa pretendida

Volvei os vossos olhos às verdades
Mais altas que se colhem na existência
O mundo espiritual é a experiência
Mais rica de Amor e qualidade

Como convêm aos homens o conforto
E a facilidade no fazer,
Esquecem-se quão curto é o seu viver
Que, em breve, tudo aquilo estará morto.

E levantando seu olhar sereno
Por sobre os horizontes das campinas
Em frases doces, leves, cristalinas
Assim se despediu o Nazareno:

Quem ouve essas palavras e as realiza
É igual a um sábio que edificou
A sua casa sobre a rocha e achou
Que esta obra é a que se concretiza

De fato, a casa ergueu-se altaneira
E resistiu aos vendavais bravios
Sopraram ventos, transbordaram rios
Mas ela não caiu, quedou-se inteira.

O povo ouviu o doce Mestre
Com lágrimas de amor em seus olhares
A tarde se espargia pelos ares
Numa tranquilidade bem campestre...


Ao longe um vulto calmo se desfaz
Uma aura de luz já o encobria
A imagem era tão bela, dir-se-ia,
Que ali seguia o símbolo da Paz...

Paulo Waldemar R. Falcão - 1988 -

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